"Menos Brasília e mais as cidades": Luiz Ovando defende autonomia dos municípios em campanha à reeleição.
Deputado federal do PP diz que a direita "está tomando juízo" e aprendeu a negociar, apresenta balanço de R$ 286 milhões em emendas e critica os pisos definidos em Brasília.
Um dia depois da carreata e do adesivaço que marcaram a largada de sua campanha na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande, o deputado federal Dr. Luiz Ovando (PP) sintetizou em uma frase o mote com que pretende disputar a reeleição: menos Brasília e mais Mato Grosso do Sul. Na entrevista concedida na manhã desta segunda-feira (17) ao Giro Estadual de Notícias, do Grupo Feitosa de Comunicação, ele foi além do slogan. “Eu digo menos Brasília e mais as cidades”, corrigiu.
Médico, professor e no segundo mandato na Câmara dos Deputados, Ovando construiu o raciocínio a partir de uma crítica ao próprio instrumento que hoje sustenta boa parte da relação entre parlamentares e prefeitos. “O deputado não tem que estar distribuindo dinheiro. Esse era o meu posicionamento e eu continuo com esse questionamento”, disse, sobre as emendas parlamentares. “Mas a regra é essa e eu não posso sair da regra. Eu vou jogar o jogo, eu tenho que jogar dentro da regra.”
Dentro dessa regra, o deputado apresenta como principal marca do mandato a destinação de aproximadamente R$ 286 milhões aos 79 municípios do Estado ao longo dos dois mandatos — número que ele atribui ao balanço do gabinete. Segundo Ovando, cerca de metade foi obrigatoriamente destinada à saúde, e a infraestrutura ficou com R$ 34,3 milhões. As prioridades, disse, foram educação, saúde, infraestrutura, assistência social e esporte.
Ao explicar a fatia da saúde, ele fez uma crítica ao Executivo federal. “A saúde é inflacionária: você aumenta acima da inflação o custo com a saúde. E os governos não querem ter essa responsabilidade”, afirmou. “Você pode observar várias estratégias e artimanhas para sair fora da saúde.” O deputado defendeu, também, uma mudança de foco nos investimentos do setor. “Nós temos deixado de lado o clínico e investido muito em equipamento, tecnologizando inclusive a medicina, o que é gasto exagerado e desperdício.”
A tese municipalista. É na relação entre União, Estado e município que Ovando localiza o que considera o principal problema estrutural. “O município é a fonte do poder, é a fonte da riqueza. O município é concreto, é a cidade onde a gente mora, é o poder local, ao passo que o Estado é abstrato, o país é abstrato”, argumentou. Citando o ex-ministro Paulo Guedes, defendeu deixar o recurso arrecadado no município e enviar à União apenas o necessário — o que, na sua leitura, encerraria uma relação de dependência. “Não ficar simplesmente o prefeito indo ao deputado pedir dinheiro, criando uma certa dependência, um certo vassalismo, o que não me agrada do ponto de vista administrativo.”
Provocado sobre a reclamação recorrente dos prefeitos sul-mato-grossenses — os pisos salariais definidos em Brasília e o impacto deles nos orçamentos municipais —, o deputado apontou o problema na régua populacional usada para calcular repasses. “Tem cidades de fronteira, Ponta Porã, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, a própria Iguatemi. Tem uma passagem muito fácil dos países vizinhos. Corumbá, a Bolívia está ali bem próximo, e esse pessoal vem usar os serviços de saúde. E a coisa é fria, estática, em relação única e exclusivamente ao número populacional.” Ele citou ainda o caso da Capital, onde a população flutuante supera em muito a residente, e defendeu “uma agilidade, uma liberdade maior” na aplicação desses recursos. “Esses pisos realmente amarram muito.”
A direita “tomando juízo”. Ovando, que se define conservador, avaliou que o campo político ao qual pertence chega a 2026 mais organizado do que em 2022 — quando, lembrou, perdeu a eleição presidencial. “O que a gente percebe hoje é que a direita está tomando juízo”, disse, ressalvando que não fazia crítica ácida. Para ele, o problema foi a resistência a negociar: “Quando a gente está certo em alguma coisa, a gente cede pouco, e em política nós precisamos aprender a negociar. Não é distorcer valores e princípios, mas tem certas coisas que às vezes não é o momento exato, então você protela.”
O deputado recorreu a uma analogia da física para explicar a mudança. “A força decomposta enfraquece e a força composta fortalece, ela aponta numa determinada direção. Eu quero crer que hoje a direita está mais coesa, mais firme, mais determinada.” Ele não citou nomes nem detalhou alianças em Mato Grosso do Sul.
Vinte anos de derrota. Aos 77 anos e no terceiro pleito em que pede voto para si com chance real, Ovando fez um balanço pessoal quando questionado sobre o que mudou de 2018 para cá. “Eu apareço em destaque quando eu me elejo, mas eu tenho 20 anos de derrota para trás. E a derrota é pedagógica”, disse. Ele contou que só não desistiu por insistência da mulher, Clotilde, com quem completa 50 anos de casamento este ano: “Ela falou assim, ‘vai ser candidato a deputado federal, você tem cara de deputado federal’. Eu falei ‘tá bom’. E ela estava certa.”
Eleito pela primeira vez em 2018, pelo PSL, com 50.376 votos, foi reeleito em 2022 pelo PP, com 45.491 votos. Nesta campanha, avalia colher um retorno diferente na rua. “As pessoas querem coerência, as pessoas querem equilíbrio, as pessoas querem confiar em alguém.”
O alerta. Antes de encerrar, o deputado dedicou um trecho da entrevista a uma advertência ao eleitor sobre o próprio período que se inicia. Comparou a campanha a um namoro — “é o período da conquista, é o período da sedução” — e emendou: “Nós, seres humanos, nos movemos muito pela emoção. Então é importante alertar que este é um período de muita manipulação emocional, e que o resultado vai ser uma realidade fria, crua e dura. Nós precisamos escolher bons governantes e bons representantes.”















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